“The doctor should be opaque to his patients and, like a mirror, should show them nothing but what is shown to him”
Sigmund Freud
Você assiste a um filme de suspense e automaticamente sua respiração se torna ofegante e sua musculatura do rosto tensa. Mergulha em um filme de drama, para em pouco tempo “sentir na pele” o sofrimento da protagonista e se pegar enxugando algumas poucas lágrimas do rosto. Só de ouvir um amigo te contar sobre ter presenciado um acidente no qual alguém machucou feio o joelho, você se pega passando levemente a mão em seu joelho. Ou pelo menos com vontade de fazer.
Já parou para pensar sobre isso? Vamos pensar juntos agora… Que tal?
Em meados de 1990, alguns cientistas italianos fizeram uma incrível descoberta ao estudar a reação de macacos a determinados estímulos. Um belo dia, um dos cientistas fez um movimento para alcançar a sua comida e observou que a área do cérebro do macaco responsável pelo mesmo movimento foi estimulada. Como isso poderia estar acontecendo? Como a área do cérebro do macaco responsável pela movimentação do seu braço poderia estar acendendo se o macaco estava sentado e apenas observava o cientista?
A série de testes e experimentos que se seguiram foram responsáveis por uma das maiores descobertas das ultimas décadas: os neurônios de espelhagem. Um conjunto de neurônios responsável pelo vinculo empático que nutrimos pelas outras pessoas.
A eles é dada a responsabilidade de reconhecer expressões faciais, interpretar intenções, bem como fazer-nos sentir remorso ao vermos que causamos alguma dor a alguém.
Ao serem submetidos a testes de ressonância magnética funcional, psicopatas demonstram baixa atividade nessa região, o que, acredita-se, ser o principal fator responsável pela sua falta de capacidade de assumir culpa, comportamento considerado um das maiores indicadores de sociopatia.
Um estudo demonstrou que mesmo acontece com crianças autistas, que, por possuírem pouca atividade nessa área, não conseguem contextualizar e compreender muitas das coisas que para muitos são invisíveis de tão óbvias.
Assim como outras áreas do cérebro, os neurônios de espelhagem de determinado indivíduo podem concentrar mais atividades do que os de outro individuo, dependendo do tipo de papel social que desempenha e como vive a sua vida no dia a dia.
Isso talvez explique algumas diferenças socioculturais que encontramos ao nos depararmos com pessoas de diferentes lugares. Uma cidade como Nova Iorque ou São Paulo possui ritmos bem diferentes de cidades como Rio de Janeiro ou Sidney, e isso molda a maneira como as pessoas se conectam, ou não se conectam, umas às outras em seu dia a dia.
Em cidades onde o grau de individualidade é mais alto, acredita-se que as áreas responsáveis pelo vínculo empático com outros seres humanos sejam menos estimuladas, e com isso, recebam menos prioridade em meio a toda a atividade cerebral do indivíduo.
Em outras palavras, as pessoas se tornam mais “frias” umas com as outras, principalmente em relação àquelas de fora de seu círculo de relacionamento, e que, por conta disso, não estão de alguma maneira amarradas a algum contexto emocional em suas mentes.
E aquele vizinho que você sempre encontra mas com o qual nunca puxa assunto, ou aquele colega de trabalho que, apesar de você ver todo dia, não sente vontade de se engajar em um relacionamento mais significativo.
Não é difícil lembramos de pessoas que vêm e vão em nosso dia a dia e participam da nossa vida agregando valor e consumindo valor, mas não fazem parte de nosso ciclo de emoções. Um mal típico das grandes cidades.
O problema da baixa atividade dos neurônios de espelhagem é ainda agravado nesses cenários pela alta atividade da região reptiliana do cérebro. Essa região foi a primeira a ser desenvolvida e está presente no cérebro de todos os animais. Ela mantém algumas funções básicas funcionando (como a respiração) e é responsável por disparar as três reações mais básicas de todo animal: congelar, correr ou lutar.
Com a pressão do dia a dia, desencadeada principalmente pela vontade de elevar o status social, não é incomum que o reptiliano assuma o controle diversas vezes, trazendo à tona a sensação da caça a sobrevivência vivenciada pelos nossos ancestrais. Não é à toa que chamamos esses grandes centros de “selvas de concreto”. E que utilizamos expressões como “tenho que matar um leão por dia”.
Muito da agressividade presente em cenários como Wall Street e em todas as culturas corporativas “filhas” desse modelo pode ser explicada por esse trade-off de atividade entre os neurônios de espelhagem e o cérebro reptiliano. Um é consideravelmente colocado de lado, enquanto o outro é constantemente acionado para garantir a sobrevivência de mais um dia.
Pessoas foram educadas, empresas construídas, sociedades alicerçadas sob essa ótica, a de que o papel do trabalhador é o mesmo do antigo caçador: aprimorar sua técnica, métodos e habilidades, ganhar conhecimento e aplicar esse conhecimento com a finalidade de garantir sobrevivência e conforto para si e sua família.
E, de fato, essa lógica não está errada. Faz parte de nossa natureza, em um ambiente competitivo, mostrarmos agressividade. Cada um da forma que melhor a expressa.
Com o passar dos anos, a maioria das corporações construiu em cima desse gatilho estímulos para aumentar a competição e a agressividade, ao contrário de mecanismos de diminuição e controle desse ímpeto natural.
O problema?
Quando nos sentimos ameaçados e o reptiliano assume, nossos vínculos empáticos são desligados e todo o processamento criativo e “gestáltico” dá lugar a uma visão afunilada e simplificada. Isso acontece para que nenhum recurso seja desperdiçado em nada que não esteja relacionado com o contexto da ameaça, aumentando assim nossas chances de sobrevivência a situações de risco.
Em suma, para alavancarmos a inovação dentro de qualquer corporação, é preciso repensarmos os alicerces que formam a base da geração e a percepção de valor cunhados desde a revolução industrial e carregados nas costas por executivos a um alto preço até os dias de hoje. Precisamos de novos modelos, que sustentem um ambiente mais colaborativo e menos competitivo, e que celebrem as diferenças entre as pessoas, pois é delas que nascem as novas ideias.
Precisamos de uma nova anatomia para a cultura corporativa. Uma que esteja mais alinhada e seja capaz de fomentar a incrível natureza do pensamento criativo humano.

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